quinta-feira, 16 de maio de 2013

Capricciosa

Você adora pizza e está se mudando pra Luanda? Tenho uma péssima notícia. Difícil achar pizza que presta por aqui. Tenho quatro anos e meio de Luanda, quase, e já experimentei pizza em um monte de lugar. No Rialto, n'O Padrinho, no Ciao, no BaySide, no Bella Nápoles e em vários outros restaurantes da capital angolana, e sempre saí com aquela péssima impressão de estar comendo pizza pré-congelada assada em forno elétrico, ou, no caso das pizzas realmente feitas na hora, a sensação de comer queijo sobre massa de pão sírio, deixando aquela crosta seca embaixo que precisa ser cortada com força, enquanto cada movimento de braço com a faca espalha o recheio pelo prato, completamente descolado da base. Não é nem uma questão de lugares caros ou baratos: o Vitrúvio, restaurante do hotel cinco estrelas Epic Sana, tem uma pizza tão ruim quanto as que eu compro no supermercado. Diante desse quadro gastronômico desolador, destaco dois lugares onde pode se comer uma pizza não apenas decente, mas realmente muito boa. Em Luanda Sul, há a Pizzaiolo, sobre a qual escreverei depois; na cidade, a Capricciosa, tema desse post.


A Capriciosa fica na Maianga, num espaço que costumava ser uma garagem residencial - o local é estreito e comprido, com as mesas a céu aberto e pizzaria lá no fundo, com seu glorioso forno a lenha e cozinha à vista sob o comando do meu amigo Zé, que era pizzaiolo da Companhia da Pizza, uma das melhores pizzarias de Salvador. O ambiente é bem agradável, especialmente quando não há festas numa casa de eventos que fica logo em frente, e que costuma fazer muito barulho.


O cardápio é dedicado: só pizzas e calzones. É preciso prestar atenção na hora de escolher, já que as pizzas receberam um batismo local: para cada sabor, o nome de um lugar de Angola. A relação nome-pizza nem sempre é direta, mas consegui decifrar que pelo menos as pizzas com recheios de peixe ou frutos do mar têm nome de locais litorâneos: a de atum é Baía Azul, a estonteante praia de Benguela, por exemplo.

Para quem não gosta de carne vermelha como eu, as opções diminuem, mas ainda há muitas alternativas, todas saborosas. A minha preferida é a Camacupa, de mussarela, manjericão e tomate, ou seja, a boa e velha margherita. Pode-se escolher dois sabores por pizza, então eu geral faço uma combinação light: Camacupa com Maiombe, ou seja, margherita com pizza de alho frito. Outra favorita é a Ilha de Luanda, de camarão, deliciosa. Independentemente do recheio, basta dizer que a massa é finíssima, impecável, comme il faut.


Eu gosto da minha pizza mais careta, seguindo a receita à risca, mas se você quiser, pode pedir vários ingredientes extras, pagando a mais. Se você estiver realmente com fome, pode pedir a pizza com borda de catupiry, o famoso e tradicional requeijão cremoso brasileiro. O catupiry enche, mas pode ser uma ótima opção para equilibrar pizzas de sabores mais fortes, como a de atum.



Exclusividade da casa: a Capricciosa serve na mesa, junto com a pizza, um molho de mel com pimenta feito artesanalmente no Capão, Bahia, que tem um gosto muito marcante e específico. Mais uma vez depende de como você aprecia a pizza: eu prefiro comer sem para apreciar o sabor da receita e, na última fatia, pôr um pouco do molho para não passar em branco.  Se você realmente tiver que temperar a sua pizza, melhor pôe esse molho do que ketchup, não é mesmo?

Dica: a Capricciosa também funciona como take-away (você liga e passa para pegar a pizza) e delivery (entregam na sua casa). Olha o mapinha e os telefones abaixo. Clica que abre.


(NOTA: O meu chefe é marido de uma das sócias da Capricciosa. Esse aqui é um blog pessoal e independente, mas é bom vocês saberem).

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Espaço Luanda

Na capital angolana a maioria dos lugares para comer segue o estilo do Espaço Luanda: na dúvida, se um restaurante não diz claramente a sua especialidade, o cardápio será português ou de adaptações de comida portuguesa ao gosto angolano. Nada mais natural: 37 anos de independência não são nada e Portugal continua muito presente aqui, como a metrópole que não deixou de ser para os angolanos. É para lá que eles vão quando querem fazer compras, ir ao médico, tirar férias, estudar. Os portugueses continuam aqui em grande número. São os trabalhadores em fuga da crise nos mais diversos setores na Europa e os lusoangolanos, descendentes de portugueses nascidos por cá que viveram a vida toda entre os dois países.

O cardápio do Espaço Luanda pode ser comum, mas não a qualidade. O local funciona numa bela e ampla casa de paredes vermelhas, com mesas internas e internas. Na parte de dentro, um cômodo reservado ao staff fica exatamente no meio do ambiente, o que impede que o local se transforme num único salão e faz com que em alguns lugares sejam mais confortáveis para quem não quer ficar ligado na música ao vivo que rola num pequeno palco ali. Vale a pena ficar perto. O som não é tão alto e a música é razoável. O lugar também é muito seguro para estacionar, já que compartilha uma aŕea comum com a Escola Nacional de Hotelaria e o Hotel Monalisa. Fica atrás do SIAC, é facinho de chegar (tem mapinha nosite).


Vamos então ao tal cardápio: comecei com uma entrada sempre excelente, choco empanado, ou panado, como se diz aqui. O choco é um molusco com uma grande cabeça e tentáculos minúsculos que não existe no Brasil e em todas as Américas, mas é uma especialidade angolana. Dizem que há mais de 100 espécies, e a costa angolana tem uma especial, que dizem ser a mais saborosa. Eu adoro choco, e é um ótimo petisco, frito ou panado, ou mesmo um prato principal, servido grelhado. Mas deixa para comer no restaurante. Já tentei fazer e é muito complicado, fica borrachudo. Deixe o preparo para os profissionais. A entrada de choco do Espaço Luanda é muito bem servida, dá para três pessoas.





Como prato principal, muita gente pediu carne, e ficaram todos muito satisfeitos. Vocês sabem que não é a minha, então mirei num caril de camarão – camarão ao curry -, que, apesar de ter fama de ser indiano, com o comércio pós grandes navegações, entrou de vez na culinária portuguesa. O prato é muito, muito bom, com um molho bem cremoso e saboroso e camarões bem grandes, mas a porção servida vem numa panela, e claramente serve duas, ou mesmo três pessoas. Não é prato individual, e eu mesmo na gulodice para não desperdiçar um prato tão bom não consegui comer tudo. Se for pedir o caril, divida com alguém. Na minha mesa também pediram salada de camarão – não agradou muito – e, obviamente, bacalhau, um deles no pão.



Para a sobremesa não são muitas as opções. Valeria a pena um pouco de criatividade para ir além desse menu básico. Eu fui de hot fudge brownie, bem honesto, mas provavelmente excessivo depois da refeição pesada que eu fiz (mas aí o erro de julgamento foi meu). Mas, enfim... Boa comida, pá.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sabor de Texas


Há poucos americanos em Luanda, a maioria na área do petróleo. Os coitados não tem um fastfood que preste, mas se eles não podem comer hamburger, ao menos os gringos sulistas podem matar o banzo com uma boa comida mexicana, no Sabor de Texas, que fica numa rua transversal do Cruzeiro/Miramar, que vai dar direto no Cemitério das Cruzes. Há muitos americanos morando por ali, especialmente a galera que faz parte da super infra da embaixada americana, e ao que parece, esse pessoal adotou o restaurante como segunda casa. Anda lotado, com gente esperando do lado de fora.
O lugar é acanhadíssimo, um balcão e cinco mesas, mas a decoração, embora tímida, tem algum estilo, com motivos tex-mex, mapas antigos e adornos que parecem mesmo objetos de cena de algum faroeste. Faltou a porta de mola, mas, tirando isso, o clima é mesmo um salloon (eu dispensava a televisão enorme), o que inclui uma garçonete insinuante, que te atende em perfeito inglês – que ela aprendeu na África do Sul, claro. 


É ela e mais ninguém no atendimento. Quando tem que servir alguém sai detrás do balcão, e inclina-se com sua bandeja de nachos. Ficamos sentados no balcão, por falta de mesas. O lugar esvaziou em seguida, mas ficamos no balcão, porque parecia uma experiência mais autêntica, mais roots. A gordura sobe solta e se espalha no espaço pequeno, e você sai precisando de um senhor banho. 


O cardápio é aquela coisa: fajitas (que obviamente não são as fahitas libanesas, muito populares aqui), enchiladas, tamales, tacos, mas no fim do expediente pouca coisa ainda está disponível. No dia em que fui lá o frango já tinha acabado, por exemplo, e não havia tamales. A comida demora, e me parece que eles abriram sem esperar uma demanda tão grande. A garçonete disse que já falou ao dono americano que eles precisam de um lugar maior, mas parece que ele não ouve.


Fomos tradicionais: começamos com nacho e chili, muito bons. Na falta de frango, sobrou pra mim uma enchilada de queijo, servida com arroz frito, feijão amassado (não vi bacon nem linguiça), salada de tomate e guacamole, que eu dispenso. Não sei se foram os nachos de entrada, mas me pareceu muita comida, muito consistente, para quando se tem muita fome. 


Os tacos de carne também foram aprovados pela minha companhia, mas ele só comeu um dos três tacos servidos e fez um take-away do resto. É pra encher mesmo a barriga, comida de cowboy. Claro que nem pedimos sobremesa, até porque, apesar de não ter perguntado, duvido que houvesse. Cowboy não come doce. 


Enfim, a comida é boa, mas numa segunda vez, depois de experimentar essa atmosfera gordurosa de salloon, a melhor opção é pedir a comida por telefone e entrar lá só pra buscar os pratos. Olha os telefones: 913 343424 / 926 942160. Eles oferecem serviço de catering no almoço. O melhor é ver o site deles, onde, deo gratias, dá pra ver o cardápio todo e também as opções do catering.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Brasa (com um pulinho no Zodabar)

O Sul de Luanda é uma região mais recente, cheia de condomínios, ruas largas e absolutamente nada nas ruas além de muros. Há todo o conforto que esse tipo de não-lugar costuma oferecer, mas arrumar um lugar pra comer às vezes é uma tarefa ingrata. Só restam os restaurantes de shopping, centros empresariais e uns poucos locais isolados. Se você tá a fim de comer bem, mesmo pagando um pouco mais, eu recomendo os restaurantes de hotel, como o Brasa, do apart Colinas do Sol, mesmo que eu não seja exatamente o público-alvo do local. A especialidade deles é carne.

O Colinas do Sol fica pertinho do Belas Shopping, no retorno mais próximo a ele. Frequentemente, é preciso estacionar na rua, já que poucas vagas dentro do apart, e mesmo o espaço nessa rua pode estar bem disputado, já que há uma faculdade bem próxima, a Óscar Ribas. Depois que se entra, o Brasa fica logo à direita da porta principal, mas vamos dar uma voltinha antes de chegar lá, para dar uma passada no outro restaurante do apart, o Zodabar.


Os dois locais são vizinhos, e compartilham a área aberta próxima da piscina, apenas com uma divisão. A diferença é que o Zodabar é todo ao ar livre, e tem um menu bem mais limitado, em geral focado em pratos portugueses assimilados pelo gosto angolano, como o bitoque (carne com ovo), bacalhau e grelhados. Como o nome diz, o lugar tem um DNA mais de bar, com um espaço de música ao vivo que costumava ser bem frequentado pela comunidade brasileira, antes da devagar e constante (mas ainda não muito expressiva) migração portuguesa para Talatona. Os lusos costumam ser maioria no local, ultimamente.

Eu nunca fui muito fã do Zodabar, não só porque não costumo frequentar tanto os locais de brasileiros (é preciso sair da bolha, pessoal), mas também porque sempre achei o serviço muito ruim, demorado, com um preço alto para uma comida apenas mediana. No dia em que saí de casa para escrever esse texto, pretendia ficar no Zodabar, e não no Brasa, mas o garçom me informou que em pleno horário de almoço de domingo, não estava disponível nenhuma das opções de peixe ou frutos do mar que constam no cardápio. Nada, nada. Resolvemos mudar para o restaurante vizinho, simples assim.

O Brasa tem dois ambientes: um contíguo ao Zodabar, e outro fechado. Num domingo de sol, não nos fazia sentido ficar do lado dentro, mas foi a decisão errada. Por algum motivo, assim que começamos a comer vieram as moscas, que nos atormentaram até o fim da refeição.
 

O Brasa funciona à la carte, mas com uma diferença: você pede apenas a carne. Se quiser acompanhamento, paga à parte. Eles têm o básico: arroz, feijão, farofa (com farinha musseque, e não a brasileira), batata frita, legumes. Enfim, a estrela deve ser realmente a carne, e eles têm poucas e boas opções, para quem gosta. A mais popular é a picanha, até mesmo pelo preço. Para quem vai de peixe tem uma opção de peixe fresco do dia, e, claro, bacalhau e choco, uma lula tipicamente angolana sobre a qual falo depois em mais detalhe.



Não pedimos entrada, e eu tracei o peixe do dia, uma posta de garoupa de sabor realmente maravilhoso. Aqui em Angola o peixe grelhado normalmente é servido com um molho realmente muito bom de cebola cortadinha do azeite, que dá um sabor especial sem roubar o gosto natural, como os molhos de pimenta. Estava muito bom. Na nossa mesa, a picanha também foi amplamente aprovada: tenra, macia e saborosa.


O melhor, no entanto, foi a sobremesa. Há o habitual, como brownie, petit gateau, etc, mas prefira uma especialidade angolana, o sorbet de múcua. Múcua é a fruta do imbondeiro, árvore típica da África, de Madagascar ao Senegal, também muito presente em Angola. Fora daqui, normalmente é conhecida como baobá. Nunca provei a fruta in natura, mas ao que parece ela precisa ser tratada antes do consumo, marcado muito mais pelo suco e por derivados. O sabor é ácido e forte, mas bem especial, algo entre o mesmo cupuaçu e o tamarindo. Em forma de sorbet, é uma opção de sobremesa light e refrescante, sem contar que, se você é estrangeiro, por que não experimentar um autêntico sabor local?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Le Petit Bistro

A Baixa de Luanda é uma região que sofre com uma ocupação exclusivamente diurna. Luanda acorda cedo, e logo no início da manhã se observa a confusão de gente resolvendo problemas nos bancos, correndo para o trabalho, entrando e saindo das lojas... À noite, a baixa fica deserta, tomada por jovens bêbados, prostitutas, e gente meio perigosa. É uma pena: restaurantes bons, como o francês Le Petit Bistrot, acabam sofrendo com a sensação de insegurança que assombra a região, já que as pessoas fazem tudo para evitar o assédio de guardadores de carro e a possibilidade de serem assaltadas.

O Le Petit Bistrot, até onde eu sei, é o único restaurante exclusivamente francês de Luanda, e fica na mesma rua do BPC, do Espelho da Moda e do ultrassingular Elinga, um teatro/galeria de arte/boate que tem a melhor música eletrônica de Luanda, talvez a única (sério, as pistas aqui são muito ruins, mesmo que hoje já tenham diminuído a frequência de Sarajane, Luiz Caldas e Ivete das picapes).


Enfim, é mesmo um lugar chato pra estacionar e ocasionalmente perigoso para ir a pé, mas vale a pena conhecer o lugar, que virou um raro refúgio da comunidade francófona, a ponto do dono se dirigir aos clientes que entram primeiramente em francês. Se você não segurar a onda, ele passa pra português, com forte sotaque. O espaço é pequeno, seis mesas no máximo, com uma ambientação bastante simples e os indefectíveis quadros de Paris como o máximo de decoração.


O menu é basicamente uma cápsula de comida francesa, e aqui, como eu não como carne vermelha, não vou poder realmente opinar com propriedade a respeito do Boeuf Bourguignon e cia. Já fui ao lugar algumas vezes, e sempre peço peixe, que vem em receitas leves, mediterrâneas e muito saborosas. Para escrever esse post, resolvi variar um pouco.


Comecei com uma salada de queijo de cabra, leve e gostosa, mas as outras entradas da minha mesa foram melhores: a salada de camembert empanado estava excelente, mas, surpreendentemente, o melhor de tudo foi um tartare de peixe com um tempero espetacular, com leite de coco e coentro. Tartare de peixe, claro, é peixe cru, mas essa mistura com leite de coco não transforma a entrada num sushi baiano. Tem gosto de ceviche andino, muito bom, mas, segundo o menu, a receita tem origem no Tahiti. Chique, hein? Normalmente eu peço a sopa de peixe de entrada e, se não tiver mudado a receita, é uma excelente opção.


Pro prato principal, em geral peço linguado, mas desta vez apostei num supremo de frango ao molho roquefort. Não sei foi uma infelicidade deste dia em especial, mas o frango estava duro, ruim de cortar, e o molho em quantidade, em vez de umedecer a carne, deixava tudo enjoativo. Foi uma má escolha e eu voltarei ao peixe numa próxima visita. Na nossa mesa, no entanto, pediram lagosta thermidor, coberta com queijo, e estava realmente incrível. Ao contrário dos clichês de restaurante francês, serve-se muito bem, prato cheio. A lagosta dava para duas pessoas tranquilamente, especialmente após uma entrada mais consistente.



Sobremesa: eu já provei o petit gatêau e é impecável, mas dessa fez fui de crepe suzette com molho de laranja. Delícia, delícia. Na minha mesa acharam muito doce, mas eu não achei. Foi perfeito para neutralizar o gosto forte de queijo e terminar a refeição numa nota mais amena. Provei também a crème brûlée, bem razoável.

Enfim, no todo, o lugar proporciona uma noite bem agradável. Vale a pena sair um pouco da zona do conforto e prestigiar locais que investem numa ocupação integral da cidade, noite e dia. Hoje ele é uma exceção, mas quem sabe não seja o pioneiro de uma revitalização bem merecida?

domingo, 31 de março de 2013

Shogun

No post anterior eu havia mencionado rapidamente o Shogun, o melhor japonês da cidade e, que eu saiba, do país. O Shogun faz parte do mesmo grupo de outros bons restaurantes da cidade, com diversos públicos: a churrascaria Esplanada Grill, o internacional Emporium, que são os melhores; a versão angolana do Bob's, o chinês de shopping TaiPing e o BaySide, que tem uma comida bem variada mas é um dos lugares mais irritantes da cidade - só que disso a gente fala em outros posts. Todos esses lugares têm administração brasileira e o principal sócio é o riquíssimo empresário nipobrasileiro Minoru Dondo.

O Shogun fica na Ilha, e parte dele dá direto para a praia. Vários restaurantes da Ilha são assim: você é atendido nas mesas e desce direto para a areia, numa área estranhamente limitada como sendo do restaurante. Não é: em tese, qualquer pessoa pode ficar lá, mas o cidadão comum, que não está ali para consumir, acaba procurando trechos livres, sem a vigilância dos guardas. Por causa disso, até, esses restaurantes fazem muito sucesso entre estrangeiros e a classe alta angolana.

É comum ver estrangeiros na areia até o limite do restaurante; em seguida, angolanos. É algo que me faria pensar em apartheid, se não houvesse também angolanos do lado de cá da praia, com a diferença que eles têm muito dinheiro. O Shogun não é diferente: até pelos preços bem salgados, o público é o que chamam de "selecionado", e usa-se a palavra sem qualquer pudor.

Ambiente à parte, estamos mesmo em um restaurante muito bom, de ótimo atendimento. São quatro (novamente) ambientes: um restaurante fechado em forma de estufa de vidro, circular; a parte de fora do mesmo restaurante, ao ar livre, sobre um deck de madeira; o teppaniyaki, que é basicamente um balcão em meia lua, sem mesas, onde se come apenas grelhados (cardápio diferente do restaurante), também dentro de uma caixa de vidro; e a própria praia, com espreguiçadeiras, guarda-sóis e algumas mesas. Vamos falar aqui da experiência do restaurante, na primeira caixa de vidro.


  

O qualidade deste menu é ser básico e muito bom. Não tem variedade, não tem sushis malucos, não tem nada esdrúxulo. De entrada, começamos com uma sopa de peixe, boa mas forte demais, e um misoshiro, que não está no cardápio. Se você pedir, eles trazem lá do bar em meia lua. Entradinha campeã: tataki de salmão, muito provavelmente o ponto alto da noite. 


Em seguida, o econômico (nem tanto) combinado para duas pessoas. Basicão e delicioso, sushi e sashimi de salmão e atum, muito bem cortado, o que não é comum aqui. Não raro o sashimi despedaça, tanto por inabilidade do sushiman, quanto por questões de acondicionamento, suponho. Com a energia caindo toda hora e geradores nem sempre confiáveis, acho que o peixe importado congela e descongela, perdendo a consistência e ocasionalmente provocando diarreias. Com certeza esse não é o caso do Shogun.  Estava tudo impecável.


Curioso é que o público angolano, mesmo o com mais grana - que frequenta esse tipo de restaurante -, não tá acostumado com a comida japonesa. Numa mesa ao lado, com quase dez pessoas, só duas comeram, e o fato de saberem usar os hashis causou espécie aos demais. No resto das mesas, a maioria absoluta era de estrangeiros.

Pra finalizar, vamos pecar pelo excesso: tempura de sorvete, ou, como explica o garçom, "gelado frito". É basicamente impossível de encarar sozinho se você comeu sopa, entrada e prato principal. Sem contar que mesmo pra quem comeu pouco deve ser uma sobremesa peso pesado. Começa muito bom, mas fica rapidamente enjoativo. Divida com alguém ou peça outra coisa.


Atenção: novamente chegamos sem reserva, e só conseguimos uma mesa de canto. Em fins de semana a reserva é mesmo fundamental: 931756580.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O Caril

Como se pode ver no post de apresentação abaixo, a ideia desse blog é velha, mas a execução nunca realmente arrancou. Até agora. Comecemos pelo O Caril, um dos dois restaurantes indianos com alguma proeminência na cidade, junto com o Broadway - se não me engano, são os dois únicos. Comi n'O Caril pela primeira vez essa noite, após dar com a cara na porta do Shogun, o melhor japonês da cidade. Às oito da noite, todas as mesas vazias, mas todas reservadas. Fomos para O Caril, ali perto.

Explicando a geografia de Luanda para quem não conhece: há um grande número de restaurantes na turística Ilha de Luanda, que na verdade é uma estreita faixa de terra paralela à baixa da cidade. Antes, a ilha era uma ilha de verdade, mas, após o aterro no ponto mais próximo entre os dois lados, virou uma península, e esse intervalo de água com a cidade virou uma baía. Pois bem, tanto o Shogun quanto O Caril ficam na Ilha.

Enquanto a maior parte dos restaurantes desta zona estão total ou parcialmente a céu aberto, em frente à praia, O Caril fica exatamente no meio da faixa de terra, sem dar para o mar aberto nem para a baía. Quem passa vê à direita apenas a placa com o nome do restaurante, mas a entrada fica numa ruazinha lateral, e o restaurante é na verdade o subsolo de um hotel do qual é independente, o Palm Beach.

Traduzindo para brasileiros: caril é curry. O tempero é muito usado aqui, não exatamente por causa dos indianos, e sim, claro, por causa da presença portuguesa e as influências culinárias entre as colônias, no caso, com Goa. No caso desse restaurante, os donos são mesmo indianos, e não há como ter qualquer dúvida assim que a gente entra no recinto, que tem todos os clichês de exagero que a gente associa a esse país.

O LUGAR


O ambiente é dividido em dois níveis, com mesas mais altas nas laterais e um as mais baixas no centro. O teto espelhado, o espaço amplo e os detalhes de decoração dão a impressão de que o restaurante foi instalado numa boate de muito sucesso nos anos 70, um ponto de luxo do período imediatamente pós-colonial. Curiosamente, minha mesa foi a única a estar ocupada durante toda a noite, mas, segundo os funcionários, não se trata de decadência. Às sextas e sábados eles lotam, o que compensa toda uma semana de movimento fraco.


Outro lance notável é que o indiano-maître nos atendeu em inglês imediatamente, algo que também acontece no Broadway. O cara fala português, mas provavelmente o público é em sua maioria estrangeiro não-lusófono. Angolano com certeza esse público não é, afinal eles costumam ser bem conservadores nos hábitos alimentares, raramente fugindo à comida local e à portuguesa. 

A COMIDA

  
Pois bem, eles não sabem o que estão perdendo. Começamos com a prova de fogo de qualquer indiano, a chamuça. Provei a de frango e de vegetais (ervilhas e cebola, basicamente) e estavam muito boas. Havia a opção de chamuça e outros pratos com carne, o que me pareceu estranho, já que nenhum outro indiano que já frequentei serve. Ou talvez essa carne do menu não seja vaca. Não perguntei. Ainda de entrada, uns bolinhos de espinafre realmente estupendos, no formato de cookies, e uma tiras de frango bem apimentadas. Antes dos pratos principais, ainda, muito pão indiano, com sabor a cebola, alho, queijo e hortelã. O de cebola era o melhor, de longe. 


Pratos principais: pedi um camarão com molho de especiarias e coco. Serve pouco, mas eu já tinha comido tanto antes que fiquei cheio logo no começo. Foi uma ótima escolha, porque tudo é muito picante, e o coco deixa a refeição quase doce, curando a boca. Ah, acompanhei tudo com um muito necessário lassi, o iogurte indiano. Ainda pedimos um frango grelhado com molho de iogurte, que é bom, mas fica melhor sem o iogurte, e um frango com curry e castanhas, bem razoável. Acho que o melhor prato foi o meu mesmo.


Para a sobremesa não há tantas opções, mas você não precisa realmente escolher quando se tem kulfi à disposição. Kulfi é o tal sorvete indiano misturado com especiarias, uma delícia sem fim. Foi só a segunda vez que provei (a primeira foi em Joanesburgo, num restaurante árabe-indiano, ou de indianos islâmicos, ou de comida indiana halal, enfim) e acho que estava ainda melhor que na estreia.

Pra finalizar, se você ainda tiver espaço na barriga, um chá. O garçom vai te trazer a caixinha da Delta para você escolher entre os sachês com as opções de sempre. Rejeite e peça chá indiano de verdade, e eles vão te servir um chá preto com leite realmente típico, e que provavelmente fica lá guardado, reservado para os donos. É uma excelente despedida.